O teólogo Gerhard Ebeling afirmou que “a Hermenêutica é o ponto central dos problemas teológicos de nosso tempo”. A Hermenêutica é a ciência que se dedica ao estudo dos princípios de interpretação bíblica, e o primeiro uso do termo foi em relação à Bíblia. Depois o termo foi aplicado à Literatura, ao Direito, à Filosofia e a outras áreas.

Quanto à interpretação da Bíblia, no Novo Testamento temos um exemplo claro da importância da Hermenêutica no diálogo entre Cristo e o intérprete da Lei que lhe perguntou: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. A resposta nos surpreende, pois ele nada ensinou, mas perguntou ao intérprete da lei: "Que está escrito na Lei? Como interpretas?" (Lc 10.25-26).

Essa pergunta: “Como interpretas?” deve ser feita em nossa vida diária. Será que os nossos pontos de vista, nossas interpretações da realidade, são corretos? O próprio Jesus advertiu: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7.24).

Julgamos a nós mesmos com tolerância e aos outros como se fôssemos juízes. Tratamos a nós mesmos com brandura, mas ao próximo com rigor. Mas se olharmos para a Bíblia, veremos que ela ensina que “o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia” (Tg 2.13). Devemos, portanto, ser misericordiosos, como ensinou Jesus nas bem-aventuranças.

Por outro lado, a pergunta de Jesus poderia ser feita às Igrejas de nosso tempo que se voltaram para o lucro. Jesus ainda hoje pergunta aos que fizeram da religião uma fonte de lucro: "Que está escrito? Como interpretas?". É certo que Deus nos abençoa, mas não podemos reduzir a leitura da Bíblia à questão da prosperidade. Por um lado, se ela é prometida por Deus, por outro lado o salmista diz: “Se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração” (Sl 62.10), e o profeta Jeremias advertiu a Israel: “Falei contigo na tua prosperidade, mas tu disseste: não ouvirei” (Jr 22.21).

Quanto a Jesus, mesmo sendo tentado pelo inimigo para ter os reinos do mundo e a glória deles, respondeu ao tentador que “as raposas têm seus covis, e as aves dos céus seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58). É importante que façamos uma interpretação dessas palavras em relação à prosperidade.

Enfim, ainda é tempo de voltarmos ao equilíbrio na interpretação das Escrituras, ao justo meio, que consiste no equilíbrio entre o excesso e a falta, como ensinou Aristóteles.